quinta-feira, 19 de julho de 2007

GENTE É MAIS OU MENOS COMO UM RIO


Olá,
Hoje trago um texto da Viviane Mozé, aquela filósofa que tinha (ou ainda tem?!) um quadro no Fantástico. Viviane nos dá RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA. É interessante notar que a gente sempre conhece alguém que se encaixa em algum dos "rios" descritos pela Viviane. Ela tem publicado TODA PALAVRA e DESATO, estes dois da Ed Record, entre outros.
Beijos e boa leitura!
Eliete Nascimento



"GENTE É MAIS OU MENOS COMO UM RIO

Gente é mais ou menos como um rio:
Tem os que gostam de perigo e se lançam de grandes alturas.
Tem os de muitos braços que atiram pra todos os lados.
Tem os de muitos redemoinhos que comem bois e gente.
E tem os que gostam demais de si e viram lago.
Tem os que só sabem correr parados,
Os empoçados,
Os pantaneiros,
Os alagados.
E tem os que transam com a terra formando ilhas.
O fundo de alguns é de pedra.
Tem os de peixes coloridos.
Outros têm água clarinha.
E tem gente córrego seco.
E tem gente riacho escuro.
Alguns a terra engole vivos.
E tem até rio que corre pra trás.
O rio que eu sou nasceu em janeiro."

FILTRO SOLAR


Olá,
Hoje trago um texto de Mary Schimich, com tradução de Pedro Bial. Este texto é um daqueles que viajam pela internet e sua autoria vai sendo trocada. Já foi atribuído ao Bial, ao Veríssimo, ao americano Kurt Vonnegut, ente outros. Na verdade, o Bial gravou um cd onde declama o Filtro Solar. O texto original foi publicado pela primeira vez em 1998 e aqui no Brasil pela Editora Sextante, em 2004.
Beijos e boa leitura!
Eliete Nascimento.
PS.: Não esqueça do filtro solar!


"FILTRO SOLAR
Se pudesse dar uma só dica sobre o futuro, seria esta: "Use filtro solar".
Os benefícios a longo prazo do uso do filtro estão provados e comprovados pela ciência; já o resto de meus conselhos não têm outra base confiável além da minha própria experiência errante. Mas agora eu vou compartilhar esses conselhos com vocês. Aproveite bem, o máximo que puder, o poder da beleza e da juventude. Ou, então, esquece... Você nunca vai entender mesmo o poder da beleza e da juventude até que se tenham apagado. Mas, pode crer, daqui a vinte anos, você vai evocar suas fotos e perceber de um jeito - que não nem desconfia hoje em dia- quantas alternativas se lhe escancaravam à sua frente, e como você realmente estava com tudo em cima.
Você não está gordo! Ou gorda... Não se preocupe com o futuro. Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que pré-ocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra.
As encrencas de verdade de sua vida tendem a vir de coisas que nunca passaram pela sua cabeça preocupada, e te pegam no ponto fraco às quatro da tarde de uma terça-feira modorrenta.
Todo dia enfrente pelo menos uma coisa que te meta medo mesmo. Cante. Não seja leviano com o coração dos outros. Não ature gente de coração leviano.
Use fio dental. Não perca tempo com inveja. Às vezes se está por cima, ás vezes por baixo. A peleja é longa e, no fim, é só você contra você mesmo. Não esqueça os elogios que receber. Esqueça as ofensas. Se conseguir isso, me ensine.
Guarde as antigas cartas de amor. Jogue fora os extratos bancários velhos.
Estique-se. Não se sinta culpado por não saber o que fazer da vida. As pessoas mais interessantes que eu conheço não sabiam, aos 22, o que queriam fazer da vida. Alguns dos quarentões mais interessantes que eu conheço ainda não sabem. Tome bastante cálcio. Seja cuidadoso com os joelhos. Você vai sentir falta deles. Talvez você se case, talvez não. Talvez tenha filhos, talvez não. Talvez se divorcie aos 40, talvez dance ciranda em suas bodas de diamante. Faça o que fizer, não se congratule demais, nem seja severo demais com você. As suas escolhas tem sempre metade das chances de dar certo. É assim para todo mundo!
Desfrute de seu corpo. Use-o de toda da maneira que puder. Mesmo. Não tenha medo de seu corpo ou do que outras pessoas possam achar dele. É o mais incrível instrumento que você jamais vai possuir. Dance. Mesmo que não tenha onde, além do seu próprio quarto.
Leia as instruções, mesmo que não vá segui-las depois. Não leia revistas de beleza. Elas só vão fazer você se achar feio.
Dedique-se a conhecer os seus pais. É impossível prever quando eles terão ido embora, de vez. Seja legal com seus irmãos. Eles são a melhor ponte com o seu passado e possivelmente quem vai sempre te apoiar no futuro. Entenda que amigos vão e vem, mas nunca abra mão de uns poucos e bons. Esforce-se de verdade para diminuir as distâncias geográficas e de estilo de vida, porque quanto mais velho você ficar, mais você vai precisar das pessoas que você conheceu quando jovem. More uma vez em Nova York, mas vá embora antes de endurecer. More uma vez no Hawaí, mas se mande antes de amolecer. Viaje.
Aceite certas verdades inescapáveis: os preços vão subir. Os políticos vão saracotear. Você, também, vai envelhecer. E quando isso acontecer, você vai fantasiar que quando era jovem, os preços eram razoáveis, os políticos eram decentes, e as crianças respeitavam os mais velhos. Respeite os mais velhos. E não espere que ninguém segure a sua barra. Talvez arrume uma boa aposentadoria privada. Talvez case com um bom partido. Mas não esqueça que um dos dois pode, de repente, acabar. Não mexa demais nos cabelos, senão, quando chegar aos quarenta, vai aparentar oitenta cinco.
Cuidado com os conselhos que comprar, mas seja paciente com aqueles que o oferecem. Conselho é uma forma de nostalgia. Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias e reciclar tudo, por mais do que vale.
Mas no filtro solar, acredite!"

FELICIDADE


Olá,
Hoje trago um texto da Martha Medeiros sobre felicidade após os 35 anos. Muitíssimo interessante, principalmente para aqueles que vivem procurando conquistar a tal felicidade. Acho que felicidade é um modo de caminhar, não um lugar encantado, nem uma ilha da fantasia. O texto se chama "35 anos para ser feliz", foi escrito para uma coluna do jornal Zero Hora, em Porto Alegre em outubro de 1998 e publicado no livro "Trem-bala", L&PM Editores - Porto Alegre, 2002, pág.147.
Beijos e boa leitura.
Eliete Nascimento.




"35 ANOS PARA SER FELIZ
Uma notinha instigante na Zero Hora de 30/09: foi realizado em Madri o Primeiro Congresso Internacional da Felicidade, e a conclusão dos congressistas foi que a felicidade só é alcançada depois dos 35 anos. Quem participou desse encontro? Psicólogos, sociólogos, artistas de circo? Não sei. Mas gostei do resultado.
A maioria das pessoas, quando são questionadas sobre o assunto, dizem: "Não existe felicidade, existem apenas momentos felizes". É o que eu pensava quando habitava a caverna dos 17 anos, para onde não voltaria nem puxada pelos cabelos. Era angústia, solidão, impasses e incertezas pra tudo quanto era lado, minimizados por um garden party de vez em quando, um campeonato de tênis, um feriadão em Garopaba. Os tais momentos felizes.
Adolescente é buzinado dia e noite: tem que estudar para o vestibular, aprender inglês, usar camisinha, dizer não às drogas, não beber quando dirigir, dar satisfação aos pais, ler livros que não quer e administrar dezenas de paixões fulminantes e rompimentos. Não tem grana para ter o próprio canto, costuma deprimir-se de segunda a sexta e só se diverte aos sábados, em locais onde sempre tem fila. É o apocalipse.
Felicidade, onde está você? Aqui, na casa dos 30 e sua vizinhança.
Está certo que surgem umas ruguinhas, umas mechas brancas e a barriga salienta-se, mas é um preço justo para o que se ganha em troca. Pense bem: depois dos 30, você paga do próprio bolso o que come e o que veste. Vira-se no inglês, no francês, no italiano e no iídiche, e ai de quem rir do seu sotaque. Não tenta mais o suicídio quando um amor não dá certo, enjoou do cheiro da maconha, apaixonou-se por literatura, trocou sua mochila por uma Samsonite e não precisa da autorização de ninguém para assistir ao canal da Playboy. Talvez não tenha se tornado o bam-bam-bam que sonhou um dia, mas reconhece o rosto que vê no espelho, sabe de quem se trata e simpatiza com o cara.
Depois que cumprimos as missões impostas no berço — ter uma profissão, casar e procriar — passamos a ser livres, a escrever nossa própria história, a valorizar nossas qualidades e ter um certo carinho por nossos defeitos. Somos os titulares de nossas decisões. A juventude faz bem para a pele, mas nunca salvou ninguém de ser careta. A maturidade, sim, permite uma certa loucura. Depois dos 35, conforme descobriram os participantes daquele congresso curioso, estamos mais aptos a dizer que infelicidade não existe, o que existe são momentos infelizes.
Sai bem mais em conta."

A ARTE DE NÃO SABER O QUE FAZER


Olá,
Hoje trago um texto sobre a vida. Nem sempre saber o que fazer é a melhor solução. E não saber o que fazer às vezes é mais do que um luxo, é uma questão de sobrevivência.
Este texto foi retirado do livro "A arte de viver bem com as imperfeições - jeitos simples de ficar em paz com nossos pequenos defeitos", de Véronique Vienne, com fotos de Erica Lennard, da Publifolha, 2002. O livro é tudo de bom!
Beijos e boa leitura!
Eliete Nascimento



"A arte de não saber o que fazer
Como é que ninguém o avisou de que a vida é cheia de mensagens confusas? Que o sucesso, por exemplo, é só outra palavra para “muito mais trabalho”? Que liberdade é apenas o direito de fazer o que é permitido? E que você se orgulha muito mais das realizações de seus amigos do que das suas?
Você teve de descobrir tudo isso sozinho e também como limpar marcas do copos molhados do móvel claro, onde achar a receita pra salmão firo com gelatina e onde pedir o melhor empréstimo.
Ninguém o alertou para tudo o que se precisa saber para viver porque, provavelmente, você não estava pronto para ouvir. De todas as criaturas do planeta, os humanos são as que aprendem mais devagar.A maioria dos animais já nasce com o cérebro plenamente desenvolvido, ao passo que o cérebro dos humanos, ao nascer, tem apenas 20% de seu tamanho adulto. Antes de absorver as informações, precisamos construir redes de trilhas neurológicas.
Por esse motivo, a infância tem papel decisivo em nosso desenvolvimento. Passamos um quinto na vida como crianças, um terço como adultos maduros e o resto do tempo lamentando o fato de não sermos mais jovens.
Um bezerro com dez minutos de vida já sabe tudo o que precisa para sobreviver pelo resto de seus dias, enquanto eu e você, depois de todos esses anos, ainda lutamos com as noções abstratas mais básicas, como, por exemplo, se uma pessoa que viaja para leste perde ou ganha um dia ou qual é a diferença entre um litro e um quilo.
A mais jovem de todas as espécies, somos a que tem aprendizado mais longo e exigente. Por causa do tamanho diminuto do cérebro e do sistema nervoso na infância, nosso processo de aprendizagem é longo e entediante. Para as crianças, ir à escola causa grande ansiedade. Quando adulto, continuamos achando que adquirir novos conhecimentos é um processo desagradável e extenuante.
Mesmo assim, deveríamos ficar felizes com nossa incompetência. Mais do que andar ereto e falar, meter os pés pelas mãos é nosso maior triunfo, a característica que nos dintingue dos outros primatas. Na verdade, é a soma de nossos erros -também chamada de experiência- que nos permite aprender, adaptar, e em última instância, sobreviver nas condições mais difíceis e inesperadas.
Apesar das dificuldades, algumas pessoas se tornam tão competentes que é difícil lembrar que já foram bebês indefesos. Observe-as em ação. Em questão de minutos, sabem localizar, pela internet o melhor dentista da Sibéria, diagnosticar o barulho do carro como um problema da barra de suspensão e pedir uma refeição de três pratos, vinho incluído, de um cardápio todo escrito em francês. Muito impressionante, sem dúvida. Mas a natureza não nos deu o dom da incompetência por brincadeira.
Não fomos criados nus, sem presas, rabos, antenas, garras, lembrados de que não podemos resolver os problemas do mundo, mas estamos extremamente bem equipados para ficar maravilhados com sua existência. Para isso, devemos nos livrar da impressão de que somos indispensáveis. Por exemplo, esqueça que as pessoas apreciam o que você faz por elas. A verdadeira generosidade não precisa de gratidão para se justificar. Ajude os outros em seus próprios termos e deixe que eles lidem com os resultados. Não tente advinhar o que esperam de você.
Transforme as ironias do destino em desculpa para ser quem você quer ser.
Sempre que estiver em um dilema moral, faça o que achar certo, mas não pense que ter princípios faz de você alguém especial, superior ou heróico. Se, por outro lado, você não for tão ético quanto gostaria, não finja surpresa, você é apenas humano,não um santo, nem uma fraude.
Mas a maneira mais rápida de acabar com a ilusão de domínio do conhecimento é parar de fingir na frente dos outros."

ANTES QUE ELAS CRESÇAM


Olá,
Depois de algum tempo de descanso, retomo as postagens do blog. Hoje trago um texto do Affonso Romano de Sant'Anna. Um texto lindo, principalmente se você tem filhos, sobrinhos, netos ou uma criança que você ama.
O texto foi retirado do site http://www.releituras.com.br
Beijos e boa leitura.
Eliete Nascimento



"ANTES QUE ELAS CRESÇAM

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam."