segunda-feira, 18 de maio de 2009

LUCIO COSTA E OS DESENHOS



Olá,
Hoje trago um texto que fala sobre o risco, o traço. É um texto do nosso querido Lucio Costa, escrito em 1940. Tomei este texto como reflexão para a vida. “ O traço é tudo”. O desenho, objetivo ou subjetivo como as gravuras do artista Maurits Cornelis Escher, autor da gravura ao lado (WaterFall ou a queda d'água), ganha vida. Aliado a sombra e à luz, dão outras perspectivas aquilo que se vê. O que o autor cria/vê é o que se vê? Na vida é importante procurar traços, pontos de vista, significados, sem deixar de construir seu próprio desenho. O texto de Lúcio Costa traz orientações interessantes sobre o ensino do desenho, algumas podem ser adaptadas até mesmo para a educação infantil, trazendo mais riqueza na utilização do desenho da criança como forma de expressão e visão de mundo.
Beijos e boa leitura,
Eliete Nascimento




O ENSINO DO DESENHO

Programa para a reformulação do ensino de desenho no curso secundário, por solicitação do ministro Capanema.
Lucio Costa
1940

"Clive Bell define arte como significant form. O rabisco não é nada, o risco – o traço – é tudo. O risco tem carga, é desenho com determinada intenção – é o “design”. É por isto que os antigos empregavam a palavra risco no sentido de “projeto”: o “risco para a capela de São Francisco”, por exemplo. Trêmulo ou firme, esta carga é o que importa. Portinari costumava dar como exemplo a assinatura, feita com esforço, pelo analfabeto (risco), com o simples fingimento de uma assinatura (rabisco). O arquiteto (pretendendo ser modesto) não deve jamais empregar a expressão “rabisco” e sim risco. Risco é desenho não só quando quer compreender ou significar, mas “fazer”, construir.

(...) Não nos é possível fotografar a nossa alegria, a nossa dor ou a nossa angústia, senão de uma forma convencional (...), procurando com a objetiva temas que correspondam a qualquer desses estados de espírito, ou então recorrendo, artificiosamente, à fotomontagem; com o desenho, da mesma forma que com a dança, o canto ou a palavra, podemos dar plena expansão àqueles sentimentos; (...) o desenho é capaz de acompanhar, sem esforço, todas as divagações da nossa fantasia; graças a ele podemos inventar formas inexistentes, combinar bonitos arranjos inexequíveis, balançar meninas gordas em frágeis ramos de roseira, fazer o mar vermelho, a terra azul (*a terra é azul, Gagarin), – tudo é possível com o desenho; (...) o sonho: não se pode fotografar o sonho, podemos, entretanto, desenhá-lo, com todos os seus aspectos imprevistos e os seus mais extraordinários pormenores; lembrar que o cinema também tem esse poder mágico, mas o cinema não revive o nosso sonho e sim outro sonho qualquer, reconstituído com tremendo esforço, à custa do trabalho de muita gente, de mil artifícios e muito dinheiro: desenhar é mais fácil – está ao alcance da nossa mão!"
O texto do Lucio Costa na íntegra, está em http://www.dominiopublico.gov.br.

sábado, 9 de maio de 2009

POR QUE DEUS PERMITE?



Olá,
Hoje trago poesia do Drummond sobre as mães.Publicado em "Lições de Coisas". Ed. José Olympio. Para quem, assim como eu, acha que mãe deveria "durar" para sempre...
Beijos e boa leitura!


PARA SEMPRE

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

MÃES



Olá,
Hoje trago um texto de Vinícius de Moraes em homenagem ao Dia das Mães.O poema foi extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 186. Para aquelas que são mães e para aquelas que agora são filhas da saudade... Com carinho e muita paz, desejo um dia das mães bem relaxante. Beijos e boa leitura!

"Minha Mãe

Vinicius de Moraes


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.