terça-feira, 23 de outubro de 2012

A GENTE NÃO SE ACOSTUMA


Relendo o texto de Marina Colasanti, que é uma autora que gosto muito,  me deparei com um questionamento: a gente se acostuma mesmo? Ou a gente se acovarda, se atrofia, se protege para sobreviver? Será que tem coisas que a gente tem mesmo que se acostumar com elas?
A gente não pode se acostumar com as coisas ruins! A gente não deve se acostumar com aquilo que nos faz mal.
A foto do gato ao lado retirei da internet, não é do meu gato Domenico nem da minha gata Linda! Tenho dois gatos em casa e os dois estão acostumados aos bons tratos. Isso todo mundo deveria se acostumar!

O texto abaixo foi retirado do site http://www.releituras.com.br
Beijos e boa leitura!
Eliete Nascimento


"Eu sei, mas não devia

(Marina Colasanti)
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."





NÃO ADIANTA BOTAR GELO


No mês de outubro fazemos uma constatação incrível: o ano está tão no final que podemos dizer que "já era"! O comércio já se prepara para o Natal e as operadoras de viagem anunciam os "últmos pacotes para o Reveillón".
E a minha contatação pessoal: quase não escrevi nada neste blog.
A coletânea de 2012 é a mais pobre de todas. É que 2012 foi um ano de trilhar outros caminhos, outros rumos, outras conquistas. Ano de alegrias e também um ano de tristeza.
Muita tristeza.
Algumas tristezas não são no corpo, são na alma, como a perda de entes queridos, a dor que a violência contra alguém que você gosta causa em você, na sua alma, nos seus sentimentos.
A angustia da impunidade, da constatação de que vivemos numa sociedade onde ainda existem pessoas capazes de cometer crueldades e barbaridades, daquelas que nos ferem só de pensar.
Até o final do ano escreverei mais um pouco.
Escrever como de colocar para fora o que angustia por dentro. Escrever como forma de terapia.  Para não sufocar, para não pifar,  para não enfartar, porque mesmo com as situações dificeis da vida, ela continua.
E para as dores da alma não adianta botar gelo.